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Dissertação de mestrado

São Paulo, quarta feira, 23 de outubro 2012.

 

Caríssimo Tempo,

 

Como pode entrar assim no meu corpo, na minha alma e deixar tantas

cicatrizes? Observo na minha frente o relógio que comprei na Praça Benedito

Calixto e ouço as horas passarem como ouço o por do sol no meu coração,

sentado nessa escrivaninha rascunhando palavras como se desenhasse uma

muda de hortelã, tão breve e tão impreciso. Sei que você fica aí me olhando

desconfiado, passeando silencioso pelo ateliê. Sinto a sua presença de

maneira muito forte nas asas de uma mariposa brincando entre os meus

papéis. Eu te ouço, não se engane. O sol começa a se por. Você visita as

minhas matrizes, apoiadas nas prateleiras que estão caindo... Os seus passos

são feitos de pó. Suas mãos e seus pés são lâminas que dobram e descascam

a superfície das coisas até elas mostrarem os segredos da vida. Tenho 35

anos e percorro a sua curvatura num abrir e fechar de olhos. Imagino um arco-íris

na estrada e percebo (entre as linhas que seguram o carrossel) que não

posso alcança-lo sem abrir mão de uma vitalidade que escorre e endurece o

humor todos os dias. A seiva torna-se transparente à medida que me aproximo

de você, transformando as memórias em um origami vermelho: uma forma vital

apoiada em seus caprichos. Por que você é o protagonista dos anos que

começam a se apoiar em minhas costas como um filho que pode num gesto

deslocar as nuvens. Eu o amo e te odeio. Você me curva lentamente e quer

que eu lhe estenda a mão mais uma vez antes de sair. Estender a mão para a

luz e as sombras é o mesmo que montar um arco feito de chifres de antílope. A

vista embaça. O sono de repente vem povoado de muitas expectativas e

imagens que escolhem por si a seta e o alvo: tudo em um passe de mágica. A

paisagem desaparece como se eu estivesse numa neblina. Desenho e vejo

você parado contornando os pensamentos, criando múltiplos, soprando no

ouvido de algum cão o meu nome na vizinhança. Pois bem querido tempo, não

posso mais fugir de você. Aqui estou tão vivo e cheio de esperança pelo dia

seguinte como um pardal, encolhido no galho de uma árvore. Gosto do vento

que passa pela janela. Sinto a dor irrigando as minhas costas, como se uma

iguana escalasse uma cerca de bambu. O que eu posso lhe dizer, estendendo

a mão no vazio, imaginando você todo empolgado observando uma traça numa

prateleira cheia de livros, criando labirintos no conhecimento impresso? Algo

monstruosamente perfeito a ponto de eu abrir uma página qualquer do mundo

e me surpreender com o medo e o fascínio de te ver tão perto, tão áspero,

como parte de uma cadeia alimentar tão antiga? Subo a colina e encontro a

lua. Subo o telhado dos pensamentos mais profundos e encontro novamente

a LUA. Ela te espera. Ela brilha como se fosse o olho do universo! O que quer

que eu diga? A lua é sua amante! Quando ela está entre as nuvens, posso

perceber o seu desespero nas frestas, trincando o gesso, dilatando a tinta,

quebrando o piso da cozinha, abandonando a crisálida de cristal (pendurada

em algum lugar desta casa) para pular no dorso de um gato, com os olhos

brilhando como duas pérolas na armadura de um anjo procurando orquídeas

nas calhas de zinco. Assim posso abraça-lo. Posso toca-lo no ateliê, meio

desconcertado com o que perdi e o que ganhei, escolhendo as pétalas de uma

brincadeira calculada, aceitando as condições que os anos de sol me oferecem

nos instrumentos e no papel, visitando a Universidade das Maravilhas que se

assemelha a pingos de chuva. Algo tão pequeno e tão vasto. Você encontrou

esta carta dentro de um envelope pardo em cima da mesa de vidro que cobre a

mapoteca. Ela está dobrada. Não fique com raiva. Por favor, leia. Não amasse

como da última vez. Falo aqui de coisas que gostaria de demonstrar

claramente a você na ponte do amor e do incômodo e de como podemos juntos

partilhar de uma ideia de trabalho e de vida, com o peso que as coisas

carregam entre as estações. Você mora aqui e sempre nos encontraremos pela

manhã, quando eu abrir a janela para inflar o espírito. O ar é a pura liberdade!

Você entra e sai como o dono do mundo, passando por portais que não

consigo entender. Pois bem, vamos fazer um trato: Você me diz o que quer na

ponta dos meus dedos e eu tento figurar uma parte da lua para você. Que tal?

Não precisa me responder agora e nem quebrar nada na minha ausência.

Basta abrir a carta e deixa-la intacta sobre o vidro. Eu vou entender. Peguei o

guarda chuva que ganhei da Ester este ano. Não fique com ciúmes. Eu sei

que você gosta de ficar enferrujando as hastes de ferro, de propósito. Bonne soirée!