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cauê alves

Ulysses Bôscolo: a gravura está em suas mãos

O trabalho de Ulysses Bôscolo não despreza a dimensão artesanal da arte. O fazer sempre foi central em sua poética. Em Olho Mágico, feito especialmente para o Clube de Colecionadores de Gravura do MAM-SP, o artista, além de conceber, realiza a gravação, a impressão e a construção das caixas.

 

Sua obra possui intimidade com a mão, não apenas em relação à escala, mas também nos temas. Isso é evidente, por exemplo, na imagem que ocupa quase todo o papel em que um passarinho está preso na palma da mão.

 

O processo de impressão com colher de bambu reforça o aspecto artesanal da obra. As folhas soltas têm um tamanho próximo ao de nossas mãos, são manipuláveis. Mas por serem frágeis, as gravuras são guardadas em uma caixa de madeira, mesma matéria da matriz que deu origem as impressões. O puxador e a amarração cruzada feita com cordas de tecido reforçam o tom rústico. O resultado é um objeto que deve ser folheado como um livro ou álbum não encadernado.

 

Cada caixa traz um conjunto de seis xilogravuras com uma cor predominante que varia de acordo com a numeração da tiragem. Os papéis especiais japoneses, semelhantes a tecidos, são previamente estampados em azul, amarelo ou vermelho, e trazem detalhes em dourado. A delicadeza e fragilidade do fino papel, cuja textura parece com a de uma camada transparente da pele, são ressaltadas quando vistas dentro de uma caixa bruta. O objeto é feito de compensado cru, sem pintura, com dobradiças e parafusos aparentes, propositalmente sem a mesma preocupação com o acabamento primoroso das gravuras.

 

As imagens impressas apenas em preto se relacionam com as estampas do papel de distintos modos. Algumas vezes há uma sutil oposição entre o fundo e a figura impressa pelo artista. Outras vezes há uma completa fusão entre ambos, como a xilografia em que uma borboleta na palma aberta da mão se beneficia da estampa florida preexistente, fazendo o fundo saltar para o primeiro plano e se mesclar plenamente com a imagem sobreposta. Os vazios, os brancos da xilogravura, acabam sendo preenchidos pelo motivo floral das estampas do papel, que mais do que suporte passivo, é elemento ativo na composição.

 

Ulysses Bôscolo está entre os artistas em atividade no Brasil que conseguem manter com regularidade uma ampla produção gráfica. Mesmo silencioso, seu trabalho jamais abdicou da experimentação de técnicas, formas e suportes. Assim como os pássaros que tanto aparecem em sua iconografia, sua obra está literalmente em suas mãos, mas livre e madura para arriscar voos solos.